segunda-feira, 15 de setembro de 2008

Neve no Colmeal





Balada da Neve (Augusto Gil)

Batem leve, levemente,
como quem chama por mim.
Será chuva? Será gente?
Gente não é, certamente
e a chuva não bate assim.

É talvez a ventania:
mas há pouco, há poucochinho,
nem uma agulha bulia
na quieta melancolia
dos pinheiros do caminho...

Quem bate, assim, levemente,
com tão estranha leveza,
que mal se ouve, mal se sente?
Não é chuva, não é gente,
nem é vento com certeza.

Fui ver. A neve caía
do azul cinzento do céu,
branca e leve, branca e fria...
– Há quanto tempo a não via!
E que saudades, Deus meu!

Olho-a através da vidraça.
Pôs tudo da cor do linho.
Passa gente e, quando passa,
os passos imprime e traça
na brancura do caminho...

Fico olhando esses sinais
da pobre gente que avança,
e noto, por entre os mais,
os traços miniaturais
duns pezitos de criança...

E descalcinhos, doridos...
a neve deixa inda vê-los,
primeiro, bem definidos,
depois, em sulcos compridos,
porque não podia erguê-los!...

Que quem já é pecador
sofra tormentos, enfim!
Mas as crianças, Senhor,
porque lhes dais tanta dor?!...
Porque padecem assim?!...

E uma infinita tristeza,
uma funda turbação
entra em mim, fica em mim presa.
Cai neve na Natureza
– e cai no meu coração.


Muitos de nós ao olharmos para estas fotografias tiradas no Colmeal em 1980, trazemos à memória e recordamos os belos versos de Augusto Gil, que aprendíamos na escola. Outros que não passaram pelos seus bancos, recordam certamente o que passaram pelos montes e vales atrás do gado ou a roçar um molho de mato.

Fotos cedidas por António Marques de Almeida (Tonito)
.
UPFC

1 comentário:

F disse...

E caiiiiiiiiiii a neve.
lá fora a noite é tão tristeeeee.

Se cai a neve
È a saudade
Que existeeeeeeee.

E a aldeia dorme
E tudo é silêncio

E eu apenas escuto
Bem baixinho o teu pranto.